Retalhos (Parte 1)

Giuliano abriu os olhos às cinco horas da manhã em ponto, em sincronia perfeita com o despertador. Ele precisava levantar e ir para o trabalho, mas não tinha forças. Seu coração ainda estava apertado com a partida de Renata, sua ex-mulher e primeira namorada. Ele levantou, foi para o banheiro, ligou o chuveiro e começou a chorar. Neste momento lembrou-se de seu pai que sempre dizia: “Homem não chora!”. Mas, Giuliano não estava nem aí. Seu peito estava cheio de uma dor que parecia penetrar por todos os órgãos. Uma dor que ele temia não controlar.

Giuliano saiu do banho, vestiu a primeira roupa que encontrou no sofá da sala (a mesma que havia deixado na sexta quando chegou do trabalho e encontrou a casa vazia com um bilhete de despedida no sofá). Não havia feito a barba, seu rosto demonstrava dor e fracasso. Ele se sentia um covarde por não conseguir lutar contra essa dor de forma adulta. Sentia-se como uma criança desprotegida: filho único, não conhecera a mãe e seu pai havia falecido há dois anos.

Chegou à estação do metrô e entrou no primeiro trem que apareceu no sentido que precisava ir. Sentia que todos olhavam para ele com olhar de deboche ou reprovação. Num impulso colocou os óculos escuros. Estava em pânico: sentia que todas as pessoas ali sabiam que ele tinha sido abandonado pela mulher. Desceu na primeira estação e seguiu caminhando assustado.

Após vinte minutos de caminhada, ele chegou ao prédio do Instituto de Criminalística de São Paulo, onde trabalhava como investigador. Ao entrar, encontrou sua parceira de trabalho: a detetive Sarah, uma mulher forte e determinada, mas ao mesmo tempo meiga e doce. Ela era a melhor amiga de Giuliano e eles se conheceram logo que entraram na polícia durante uma investigação envolvendo entorpecentes.

Após três anos de trabalho, ambos foram destacados para trabalhar no Instituto de Criminalística. Por causa dos bons resultados e discrição de ambos, passaram a trabalhar apenas em casos graves e que geralmente atraíam a atenção da imprensa. Assim que Giuliano entrou na sala que dividiam, Sarah percebeu que ele não estava bem e disse:

– O que aconteceu dessa vez? Você e Renata brigaram de novo?

– Não. Dessa vez ela foi embora! – ele disse tirando os óculos e desabando em uma cadeira.

Sarah ficou estarrecida em segundos com a afirmação do amigo. Correu para perto de Giuliano e disse:

– E você ficou o fim de semana inteiro sem me falar nada?

– Meu celular acabou a bateria e não carreguei. Estava sem cabeça para nada. Não queria preocupar ninguém. – disse Giuliano nitidamente abalado.

Sarah ficou sem ação. Trabalhavam juntos no departamento há cinco anos e nunca tinha visto seu parceiro daquele jeito. Ele, com seu 1,90 m de altura, pele clara, músculos que demonstravam academia intensa e seu olhar intenso, naquele momento parecia uma criança recém-nascida e indefesa.

Após alguns instantes vendo o amigo naquela condição, ela conseguiu dizer:

– Giuliano, vai para casa. Eu explico para o chefe o que aconteceu.

– Não, Sarah. Preciso ficar. Trabalhar é o que me mantém forte. É o jeito de me sentir útil.

– Cara, para de ser teimoso. Você não tem a mínima condição de trabalhar.

– Você não manda em mim, Sarah!

– Ah, pelo visto você já está voltando a ser o velho Giuliano e…

Giuliano olhou para a cara de Sarah com ódio e saiu da sala batendo a porta. Ela foi atrás.

– Olha aqui, seu mal educado: eu tentei te ajudar falando para você ir para casa e…

– O que está acontecendo aqui? – disse o chefe do departamento entrando no escritório, o sagaz detetive Oscar.

– Nada não, senhor! – disse Giuliano abaixando a cabeça.

– Quero os dois na minha sala em cinco minutos. Temos um caso grave para resolver e preciso detalhar a história com vocês. A imprensa está em cima e precisamos agir com discrição, coisa que nem preciso pedir para vocês.

Oscar se afastou rumo à sala que trabalhava e Giuliano foi até a máquina de café acompanhado por Sarah:

– Você não vai contar nada para o chefe, Sarah. Não quero que ninguém saiba. Estou me sentindo um covarde, um fraco…

– Fique tranquilo, cara. Mas hoje vamos almoçar juntos e eu quero que você me conte tudo. Agora vá até o banheiro, lave esse rosto e vamos para a sala do chefe.

Minutos depois Sarah e Giuliano foram até a sala de Oscar para receber instruções sobre o caso. Assim que eles entraram, o chefe disse:

– Vocês precisam agir rápido. Temo que os responsáveis por isso desapareçam. Como sempre todo o nosso departamento está mobilizado. Vocês mandam e pedem o que quiserem para qualquer pessoa e ninguém pode dizer não. Vou explicar o caso para vocês.

Oscar colocou umas fotos em cima da mesa e disse:

– Esta é Janaína. Ela foi encontrada morta em uma estrada rural no interior de São Paulo. Seu corpo estava com marcas de violência e jogado em uma valeta, totalmente coberto de retalhos de costura. A vítima tinha 13 anos e segundo o namorado foi morta pela madrasta que a odiava por ela parecer muito com a mãe, que sumiu há dois anos e nunca mais deu notícias. Não sabemos se este é o real motivo e a única coisa que sabemos é que Janaína foi encontrada uns dias depois da madrasta registrar queixa por desaparecimento. Ela disse no depoimento que o namorado da vítima era culpado, porém ele nega e tem álibi. Isso é o que temos e vocês precisam descobrir quem matou e por qual motivo fez isso. Agora saiam da minha sala e tragam as respostas!

Giuliano balançou a cabeça afirmativamente e perguntou:

– E o pai da criança?

– Ninguém sabe. Esse é outro desafio de vocês. Descobrir quem é o pai dessa menina. Após a morte da menina ele simplesmente sumiu.

– Ok, chefe! Vamos resolver isso! – disse Giuliano olhando com o canto do olho para Sarah.

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