Retalhos (Parte 2)

Sarah e Giuliano saíram da sala de Oscar em silêncio. Foram caminhando devagar até a máquina de café no corredor de entrada do escritório e a detetive quebrou o gelo:

– Quero botar a mão logo em quem fez isso.

Com seus cabelos ruivos, olhos verde-azulados penetrantes, cerca de 1,70 e muito irritada e determinada na hora de trabalhar, Sarah ganhou o apelido de Foguinho no departamento. Ela era conhecida como a detetive que não deixava nada barato.

– Vamos conseguir, Foguinho. – disse Giuliano enquanto acionava a máquina.

– Se você me chamar de Foguinho mais uma vez vou ser obrigada te dar um soco.

– Sou mais forte que você. – provocou Giuliano.

– Tudo bem. Mas mesmo assim vou te dar um soco. E se você revidar não vai pegar bem.

– Chantagista!

– Vamos para nossa sala traçar um plano. – Sarah disse isso e saiu andando.

– Não existe plano, Sarah! – a detetive parou, virou e olhou para o parceiro – Vamos fazer o que sempre fazemos: ir atrás dos suspeitos, das pessoas envolvidas com a vítima e interrogarmos quantas vezes forem necessárias até eles caírem em contradição. Aliás, posso estar errada mas esse namoradinho sabe de mais coisa e não quer falar.

– Porque você acha isso, Giuliano?

– Intuição. Deixa ele prá mim! Você vai atrás da madrasta e juntos procuraremos o pai. – disse Giuliano enquanto pegava o copo de café e acionava novamente a máquina, desta vez para preparar o café de Sarah.

– Bom te ver com esse brilho nos olhos, Giuliano! Quando você chegou, estava tão jururu…

Ele abaixou a cabeça e deixou rolar uma lágrima.

– Não me deixe parar de trabalhar, Sarah! Se isso acontecer, minha vida vai perder o resto de sentido que ainda tem e não sei o que será de mim.

– Você vai passar por essa, cara! Eu não te contei mas também não tive um fim de semana muito bom. – disse Sarah enquanto voltou para perto de Giuliano e pegou o copo de café – Meu pai tentou se suicidar. Cheguei na casa dele e o encontrei com uma corda improvisada no pescoço no meio da sala. Consegui retirá-lo já desacordado, chamei a ambulância e ele está internado em estado grave. Os médicos disseram que houve comprometimento da oxigenação e… – uma lágrima rolou no rosto de Sarah – Talvez ele não resista. Pensei em te ligar para a gente conversar, mas fiquei com receio da sua mulher ficar irritada.

– Poxa, Sarah! Eu… eu… sinto muito!

– Eu chorei muito, Giuliano. Já estou conformada, mas chorei muito. – Sarah secou os olhos, levantou a cabeça e disse – Vamos trabalhar? Temos um caso para decifrar e quero muito saber quem fez isso com essa jovem e qual o motivo.

– E mais: onde está o pai que não apareceu? – acrescentou Giuliano.

– Quem não deve não teme, meu caro. E se ele sumiu é porque deve e muito!

Giuliano foi para a sala que dividia com Sarah e disse olhando em seus contatos no celular:

– Conheço um delegado que atua no interior do estado. Vamos precisar de apoio para encontrar todo mundo e, principalmente, de local seguro para interrogar.

– Vamos embora. A gente passa na sua casa, pegamos algumas roupas e pertences, depois vamos para a minha e vamos viajar. No caminho você fala com todo mundo. – disse Sarah enquanto arrumava os papéis em cima da sua mesa.

– Mas antes precisamos avisar o chefe. Vai falar com ele enquanto junto tudo que temos. Te espero no carro!

Quatro horas depois os dois detetives estavam na estrada rumo à Piracicaba, no interior de São Paulo. Logo que chegaram à cidade, foram em busca do delegado Soares, conhecido de Giuliano e com quem mantiveram contato durante a viagem, e que os ajudariam na investigação. O encontraram na porta da delegacia, já aguardando os viajantes.

– Boa tarde, delegado! – disse Giuliano saindo do carro e espreguiçando após quase três horas no volante.

– Boa tarde!

Sarah saiu do carro e disse levantando os óculos escuros, colocando-os na cabeça como se fossem um arco:

– Acho que teremos bastante trabalho.

– Com certeza. Esse caso chocou a cidade. A jovem era muito conhecida, fazia parte do grupo de jovens de uma importante e tradicional igreja daqui. – disse Soares.

– E o pai dela? – quis saber Giuliano.

– Ele sumiu logo depois do crime. Temos várias pistas mas não temos como checar pois não temos policiais dedicados ao caso. Agora que vocês da capital entraram, tudo ficará mais fácil.

– Vamos precisar e muito da ajuda de vocês, Soares. – disse Sarah.

– Minha equipe está aqui para ajudar no que for preciso.

– Queremos falar com esse tal namoradinho da vítima. Qual o nome dele? – disse Giuliano.

– Marcelo. Vamos intimá-lo para vir amanhã à tarde à delegacia.

– Não precisa. Vamos até ele. Passe nos o endereço e vamos lá agora! Não temos tempo a perder. Existe uma alma pedindo justiça e a gente não pode negar isso a ela. – disse Giuliano entrando no carro.

Soares pegou um papel e anotou o endereço.

– Não precisa anotar, detetive! Entre aí. Você vai conosco!

Sarah entrou no carro, fechou a porta e colocou os óculos escuros novamente. Soares avisou um policial que passava pelo local que estava saindo para investigar um caso e fez o mesmo. Os três foram em busca de Marcelo e quando chegaram no endereço indicado por Soares encontraram um jovem de boné no portão. O delegado o apontou dizendo que aquele era o namorado e Giuliano estacionou o veículo. Sarah foi a primeira a sair do carro. Ela se aproximou do rapaz e disse:

– Boa tarde, Marcelo! Detetive Sarah, tudo bem? Eu e meus parceiros precisamos falar com você sobre a sua ex-namorada, a Janaína.

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